RESIDENCIAL MEDROSA

Águas Correntes Quentes e Frias, Comida Caseira, Tratamento de Roupas - Não tem Livro de Reclamações

domingo, junho 13, 2010

Aqui vai mais uma...

... página 100


- E como hoje é sábado liguei para casa dele! - gemeu Peter, escondendo a cabeça nas mãos.
- O que é que lhe disseste?
- Que me comprometia pessoalmente e que, se ele confiasse em mim, esta venda seria uma das maiores da década.
Peter não se enganara. Se Jonathan e ele tivessem revelado a última obra de Vladimir Radskin, os compradores dos maiores museus ter-se-iam apresentado no seu leilão e coberto as ofertas dos grandes coleccionadores. Jonathan teria oferecido ao seu velho pintor o reconhecimento com o qual sonhava desde sempre, e Peter tornar-se-ia um dos leiloeiros mais solicitados.
- Falta um pormenor importante no teu quadro idílico! Pensaste na alternativa?
- Sim, enviar-me-ás vales postais para a ilha deserta para onde serei exilado, em proca da promessa de que não me suicidarei por ter sido alvo da troça de toda a profissão.
A costa americana estava à vista e a conversa entre os dois amigos não cessara durante todo o voo, para grande desconforto dos passageiros que os rodeavam e que não conseguiram fechar os olhos durante toda a viagem. Quando a hospedeira apresentara os tabuleiros-refeições, Peter tinha levantado, com um ar inocente, a persiana da sua janela e virado a cabeça para as nuvens a fim de evitar o olhar de Jonathan, Virou-se com a velocidade de um relâmpago, pegou na pequena tarte de chocolate no tabuleiro de Jonathan e engoliu-a.
- Tens de admitir que esta comida é absolutamente horrível.
- Estamos a trinta mil pés acima do oceano, podemos ir de um continente ao outro em oito horas sem enjoar, não te vais queixar porque o perú não te sabe bem!
- Se ao menos fosse perú o que está dentro desta sanduíche!
- Faz de conta que é!
Página 100 de
a próxima vez
ROMANCE
MARC LEVY
contraponto

Depois de ter lido tanto, durante as férias, só esta noite cheguei à página 100 deste livro. Comprei-o na "feira do livro" do Porto Santo. Não conhecia este autor que, segundo o que está escrito nas badanas, é o autor de língua francesa mais lido em todo o mundo. Para já, não me está a entusiasmar, mas veremos a continuação...

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quinta-feira, maio 27, 2010

A Página 100...

«A casa de Lisboa era feita de dois pequenos edifícios que comprara por preço irrisório e que ligara interiormente, medida que não era nova nas habitações no Porto - na Bandeirinha, ou em Miragaia -, cujas casas se encarniçavam nesse enlace barroco de passadiços e vielas, como gargantas e tripas que a germinavam.

- Dunsinane - disse ele. E teve o pressentimento que a vida dos homens se deteriora quando há nelas um sinal, e logo tudo pertence às trevas; porque, Macbeth ou não Machbeth, o homem vive em pecado, sonha e completa-s no pecado. Estranho pensamento para um clown com calções de banho largos demais e cujas pregas molhadas despistavam as suas exíguas formas. Não suportava a moda que favorece e exibe o corpo, os jeans, as camisas com pinças e que vira pela primeira vez aos jovens de Brindisi, putões de olhos cândidos, ancas finas como dardos. Andavam de cá para lá na rua de Brindisi onde se estendem os cafés; e aquele ar portuário de Brindisi, liogado à portuária margem de Patras, era como as suas casas, com fios que as seguram entre um mar de esquecimento, azul, cristalino, pecador, e boiam nele as medusas, como os pecados dos homens, ou tão informes se as toca a realidade arcaica! Sentado na nocturna Brindisi, ele pensara ser talvez Alcibíades tendo perdido a amizade de Sócrates; e, como ele, ia pelos caminhos acutilar as estátuas de Apolo, destruir-lhes o sexo, os brancos ovos do sexo tão provocadores, porque tinha perdido o mestre, e ele se sepultava num vaso de veneno - antes que descobrir um amor como uma rosa de Maio em tão disforme rosto. Porque os homens têm pudor da sua fealdade, mais do que as mulheres. Para elas tudo era permitido, conceba o ventre, estremeçam as entranhas; mas o homem não.
Senão, era ver Rosamaria, com o seu ar de bruxa em sabat, com aquele riso carnívoro que só de ouvi-lo era como um galope de garanhões e um voo de pretas aves em eucaliptos; como se trocassem moradas, rotas, mapas dos desejos.»
Agustina Bessa Luís
OS
MENINOS
DE OURO
Romance
3ª EDIÇÃO
Lisboa
GUIMARÃES & Cª EDITORES
1983
Não consigo concentrar-me e perco-me no labirinto das palavras e personagens da Agustina... sendo ela uma escritora tão conceituada, o defeito só pode ser meu... se calhar... muita areia para a minha camioneta!!!

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terça-feira, maio 25, 2010

Página 100 de mais um livro já "papado"!

Acabava de dar o flanco, exactamente o que menos devia. É claro que o Eduardo pegou na deixa...
- Isto quer dizer que sou uma tentação? Tanbém eu sou uma tentação para si, não é Teresa? - comentou ele - e você procura fugir dela e esconder a cabeça na areia...
Era sempre assim, um beco sem saída. Que história, Deus meu, vou sair com um tipo de quem mal me lembro, que não seduzi coisa nenhuma, com quem esperava rir e passar uma noite agradável e saiu-me tudo do avesso, não quer falar dele, acusa-me de ser uma sedutora, das cenas que teve com a mulher por minha causa e conduz toda a conversa para a cama. Bolas. O que me irrita é ter achado a noite tão confusa. Que estranho poder teria este homem?
No dia seguinte, voltamos a ver-nos, fomos almoçar à Praia Grande; já mais calmo, não queria nada comigo, não sabia gostar, mas ali estava, quase rendido: sempre o primeiro a chegar, sempre o último a sair. Protegia-se, limitava-se, travava a fundo. Que incoerência. Continuava, com o que hoje percebo ser apenas e tanto, uma profunda mágoa inconsolável.

Uma figura engraçada, a do Eduardo. Baixo, meio careca, com os poucos cabelos que ainda lhe restam puxados para trás. Sempre vestido de Rosa & Teixeira, gravatas clássicas e camisas lisas e discretas, rematando com uns antiquados sapatos de "avô", daqueles com furinhos e atacadores que só são possíveis de encontrar num avô. Com a particularidade de não usar boxers, o Eduardo é tudo menos um homem sensual. No entanto, a sua constituição física forte e robusta marcada por anos de ténis e musculação tornam-no num cinquentão, no mínimo apetecível!

Todo este retrato aliado a uma personalidade marcada, de princípios rígidos, verdades absolutas e certezas inquestionáveis.

Toda a página 100 de
VIRADA DO AVESSO
Maria João Lopo de Carvalho
OFICINA DO LIVRO

Mais um bom livro para férias... com um final, no mínimo, inesperado... ou talvez não!!!

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domingo, maio 23, 2010

Mais uma Página 100:

«Não! já não trabalho para vocês!»
«Trabalhas, sim, coronel. Ninguém abandona a grande família. Seria mais fácil cortares uma braço.»
Francisco Palmares sente que a irritação o domina. Levanta a voz:
«Não vos devo nada, ouviste? Nada!»
O Grande inquisidor mantém-se frio. Conhece o ofício:

«Calma. Lembra-te do teu pai, lembra-te do velho Feliciano Palmares, o teu pai nunca fala alto. Sabes qual era a alcunha dele nos tempos da guerilha? O Fala-Baixinho! Excelente homem mas muito teimoso, arrogante, sempre com o rei na barriga. Despreza todos os pretos que não pertencem às velhas famílias. Gente sem nome, diz, pretos boçais e às vezes acho que tem razão...»

O coronel tira da carteira uma nota de cinquenta reais e coloca-a em cima da mesa. Aborrece-o que Monte fale assim do seu pai. Levanta-se.

«Lamento, meu caro, não posso ficar mais tempo. Diz ao teu heterónimo que vou continuar com o negócio. Diz-lhe que Euclides Matoso da Câmara é meu amigo, e que além disso não recebo ordens de ninguém.»

Página 100, linhas 5 a 22
José Eduardo Agualusa
O ANO EM QUE ZUMBI TOMOU O RIO
Romance
PUBLICAÇÕES DOM QUIXOTE

Apesar de o assunto abordado neste livro não ser da minha preferência, tenho de concordar que é uma boa obra e o li com agrado...

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quarta-feira, maio 19, 2010

Do Porto Santo: Página 100

Todos os momentos importantes da minha vida têm o vosso cunho. Como uma maldição. A minha mãe terá achado isso, não duvido. O meu pai? Não sei. O meu irmão... tu conheces de sobra as suas ideias. Ele julgava que tu eras fogo de vista. Luz que nos escapa à força dos dedos.

Tu já olhaste bem para ela?

Nunca lhe respondi, que diferença fazia? Eu só olhava para ti. E mesmo em Lisboa, longe de tudo, fora de ti e do teu cerco, optei por uma vida que se regeu sempre pela pacatez e pela tua memória. Nunca fui uma pessoa de fazer barulho. Tornei-me um excelente programador informático, já te contei? Talvez, talvez sim. Mudei de empresa duas vezes. Hoje trabalho em casa. Aluguei um apartamento que é um caixa-forte de fibra óptica e de peças que ninguém sabe o nome. Monto e desmonto problemas. Faço equações matemáticas e perco-me nisso por ser infinito e belo, perfeito como um quadrado. As tua telas, sendo quadradas, têm essa perfeição? Eu e as minhas perguntas.
Conheci a Teresa numa festa de Lisboa, logo após o meu primeiro sucesso empresarial. Disse-me:
Gosto de homens misteriosos.
Pouco depois, numa tarde de alguma alegria, confidenciou-me entre risinhos incompreensíveis, que tinha ido à astróloga.
Patrícia Reis
ANTES
DE SER
FELIZ
D. Quixote
De leitura agradável, é um livro apropriado para o tempo de férias.
Não conhecia a autora, sei que é a editora da revista "Egoísta" (uma boa referência) e fiquei com vontade de ler mais obras dela.
Não ponho foto da capa, porque já está na mesa da esplanada...

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sexta-feira, abril 30, 2010

Mais Uma Página 100

«O pai recebera a notícia da morte com serenidade. Era o que se esperava de um parente de luto, mas Amélia nunca tinha visto aquele brilho nos seus olhos. Fazia-se justiça, e de certeza que pensava no orgulho que a sua mãe sentiria nele, ela que fora a única que realmente acreditara que o lugar pertencia por direito ao seu filho mais velho, ela que ficara sozinha numa cidade em guerra para tentar fazer cumprir a vontade do sogro. Pensava no orgulho do seu avô, e Amélia apostava que lá do céu, onde estava, o rei Luis Filipe fazia figas para que os livros de História não o registassem como o "último rei de França". Amélia quase que apostava que, a esta hora, enquanto recebia os cumprimentos dos monarcas europeus e dos seus correligionários, teria escondido no bolso o pequeno canivete, que a avó Amélia lhe dera após a morte do avô, com a recomendação de que o utilizasse bem - que estupidez pensar nisso agora, mas os pensamentos, já aprendera, surgem sem serem chamados, e sem que os consigamos fazer obedecer a uma ordem preestabelecida.

Andar em Paris dava-lhe uma satisfação imensa, não se cansava de olhar para os edifícios, para as pontes sobre o rio, para as torres das igrejas, e pensar que amava profundamente esta sua cidade, este seu país. Mas agora tinha pressa. Queria dar os parabéns ao pai, queria ser a primeira a lançar-lhe sobre o colo o jornal que comprara na rua, e onde o seu nome vinha impresso. E queria ser ela a abrir a porta ao tio Aumale, que certamente acorreria imediatamente ao palácio da rua de Varenne, que a duquesa de Galliera colocara ao serviço daquele que já considerava rei de França, por entender que não podia, nem devia, continuar escondido numa vila normanda.

Estava ao fundo da rua quando o viu sair da carruagem. Estacou por segundos e respirou fundo. Aumale vinha vestido a rigor. Como se fosse engolida pelo tempo, deu por si, com quatro ou cinco anos, a olhar para a casaca, as calças, o chapéu e as faixas que secavam ao sol na imensa relva, verde, verde, de Orleães House, mesmo ao lado da sua querida York House. A memória era tão viva que parecia absolutamente real: o tio, muito direito, a brisa a levantar o seu cabelo arruivado, tão parecido com o de Phil, e o braço a apontar para cada uma das peças, enquanto lhe explicava o simbolismo das cores da casaca vermelho-viva com a sua gola alta, bordada a dourado, das faixas de tons diferentes para diferentes ocasiões, do chapéu de plumas pretas, e a história das dezenas de medalhas e condecorações. A farda de um oficial do exército francês, que vestira em serviço na Argélia, onde fora governador, e que estendia ao calor do Verão para a libertar do bolor do Inverno inglês.»


Isabel Stilwell
D. AMÉLIA
A rainha exilada que deixou o coração em Portugal
a esfera dos livros

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sexta-feira, abril 23, 2010

Esta página 100 é...

... a página 101, por a página 100 estar em branco:

"No fim desse Outono, Michel decidiu que a pequena, naturalmente robusta e a quem o ar do mar tinha feito optimamente, estava capaz de suportar a viagem, nessa época bastante longa, entre o Mont-Noir e a Côte d'Azur. Foram a Lille, onde uma Noémi mais desagradável e mais sarcástica do que nunca ofereceu hospitalidade por essa noite, já calafetada para o Inverno na bela casa de família onde nada mudara durante cinquenta anos. No dia seguinte tomaram o rápido para Paris, numa confusão de malas, caixas de chapéus e embrulhos devida, em parte, à presença de duas criadas de que o senhor de C. julgava necessárias para a criança. Para evitar o perigo de várias doenças contagiosas inseparáveis das camas de hotel, levavam também a minha cama de grades com o colchão, os lençóis e os cobertores.

Param em Paris, onde dois dias chegam para restabelecer entre Michel e Jeanne um pouco do calor calmo da sua intimidade de Scheveningen. Também Jeanne se prepara para partir; acompanha Egon a Sampetersburgo, onde um ballet do jovem músico, o Cheval Blanc au Bord du Lac, vai começar a ser ensaiado apesar da música quase escandalosamente nova. O jovem compositor não se apercebe das intrigas que se tramam e dos conflitos que se preparam nesse mundo de chefes de orquestra, coreógrafos e bailarinos a favor e contra o recém-chegado que ele é. Sempre fiel ao mesmo tempo a todos os que ama, Jeanne prometeu a Michel, quando voltasse da Rússia, vir passar alguns dias ao Sul para julgar por si própria a sua instalação de homem só com as criadas e a criança. Impetuoso como sempre, e baseado apenas num anúncio, o senhor de C. alugou por cinco Invernos a Vila das Palmas."

Página 101
O QUÊ? A ETERNIDADE
Marguerite Yourcenar

DIFEL Difusão Editorial Lda Lisboa

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quarta-feira, abril 14, 2010

Desta vez a página 100 é...

... a página 200

"Margaret entrou de rompante no quarto de Josey na manhã do dia de Acção de Graças.
- Há um boneco de neve no nosso jardim! – exclamou, como se a praga de gafanhotos não tardasse a chegar.
Josey sentou-se na cama e olhou de relance para o roupeiro para se certificar de que a porta estava fechada.
Margaret encaminhou-se para a janela de Josey.
- Anda ver!
Josey saiu da cama e juntou-se à mãe na janela. Toda a vizinhança tinha um ar imaculado, a neve cobrindo tudo uniformemente… excepto o jardim delas. Estava uma confusão, a neve toda marcada por pegadas e cheia de montículos, e lá se destacava o gelatinoso boneco de neve que mais parecia ter sido feito com uma tonelada de chantilly.
E com o cachecol de Adam enrolado em volta do pescoço.
Josey pressionou os lábios um contra o outro para não sorrir.
Ele devia ter feito aquilo depois de ela ter voltado para dentro de casa."

Página 200 de "O Quarto Mágico" de Sarah Addison Allen

Como podem ver pelo título e pela imagem da capa, trata-se, efectivamente, de um "romance mágico", daqueles bons para ler antes de dormir ou numa noite de insónias... gostei!

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quarta-feira, março 10, 2010

Uma página 100 que talvez necessite da consulta do Dicionário...

- "Homem, suponho então que é um frasco de veneno. Não destape; não precisa respirá-lo.

Submeteu-se. O récipe estava aviado. A capelinha subia ao sol radioso de Deus e isso o absorvia todo e dealbava de nuvens o firmamento estrelado por cima da sua cabeça. Seu pai, que era dos homens que não olhavam ao quilate das palavras, mandou recado para Simão de Vilas Boas:

- Seu selvagem da Portela das Cabras, não quis beber o soro da queijeira pelo gomil que lhe mandei, hei-de fazer-lho beber por um penico, que lho digo eu!

Luis da Cunha de Antas e Joana de Azevedo Vilas Boas, nada mais que D. Joaninha para a roda fidalga de Couto de Fraião, viviam felizes e gratos ao Senhor quando lhes nasceu o primeiro filho. Dizia o P.e Mendrugo, muito trémulo com os anos e de venta sempre atochada de rapé, o seu último vício, que era para prova de consciência cristã que viera ao mundo aquele menino triste e enfezadinho. Aos oito anos Plácido, que assim o baptizaram, dava ideia com as suas gelhas, sua tez exangue, seu raquitismo, dum velho anão desensopado dum bocal."

Página 100 de "A Casa Grande de Romarigães" de Aquilino Ribeiro

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sábado, fevereiro 27, 2010

E se voltassemos às páginas 100?!

"Ele não responde. Se tudo irá ou não passar não é a questão. A questão é isto estar a acontecer neste mesmo momento com os judeus. Nos últimos anos, desde a construção da casa, de facto, Viktor tem vindo a sentir a sua condição de judeu. Não é uma nova descoberta atávica das suas origens mas a aceitação de um simples facto de herança, como ter uma deformidade heriditária excêntrica, um lábio de Habsburgo, talvez. Para algumas pessoas, para alguns membros da Deutsches Haus, por exemplo, este facto de herança marca-o. Ele é um judeu, eine Jude, Zid, um Yid. E agora, na Alemanha, eles incluíram esta identidade na lei. Se ele estivesse na Alemanha, teria de modificar a propriedade e a gestão de Landauerovy Zádovy, de modo que aparecessem apenas arianos nos postos de executivos e na administração. Se ele estivesse na Alemanha, o seu casamento com Liesel, embora ainda sendo válido, seria todavia uma anomalia porque todos os casamentos posteriores do mesmo tipo, entre arianos e não arianos, são agora ilegais. Se eles estivessem na Alemanha, Ottilie e Martin seriam oficialmente considerados como mischlingen, mestiços, seres inferiores."


Pág. 100, linhas 1 a 20

A Sala de Vidro, de Simon Mawer

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